quinta-feira, 15 de novembro de 2018

dia 16


Um pescoço não deveria dobrar desse jeito. É angular por natureza, noventa graus com os ombros, mas não noventa graus consigo mesmo. Isso é angular demais. Mesmo o apreço do universo por padrões e simetrias tem um limite.
Aos seus pés estão papéis pequenos, retangulares, com imagens em preto e vermelho. É um jogo de cartas, amassadas e velhas, e é assim que sei que ele é humano. Humanos são os únicos que usam papel para coisas tão fúteis desse lado da galáxia. Da forma como estão espalhadas, parecem ter sido jogadas de propósito, com descaso.
Nenhum desses detalhes é a parte mais estranha. O que chama a minha atenção de cara, que faz meus olhos saltarem, é o que está no colo dele. Deve ter sido depositado lá, porque não é uma relíquia humana, mas na verdade não me remete a nenhuma cultura que eu já tenha estudado.
Consigo identificar que é uma coroa, mas é como nenhuma que eu vi em minha carreira de arqueóloga e em meus anos frequentando museus. Não tem joias ou adornos de qualquer tipo, não sei dizer se as reentrâncias que vejo são entalhes ou o resultado dos anos. É de metal sólido e tem as bordas rústicas e de aparência afiada, como se tivessem sido lapidadas como pedra. É como se engolisse a luz. Ao olhá-la, sou invadida por um sentimento misto de reverência e medo, como tenho sempre que escavo algo ancião, e sei que aquela coroa é mais antiga do que consigo começar a imaginar.
Encostada contra ela, de forma muito proposital, está uma das cartas: o rei de espadas.
E por mais que tudo isso me fascine, quando vejo a cena completa e olho para a desolação desse planeta alienígena, no qual não registramos vida inteligente há pelo menos três mil anos, uma única e aterrorizante pergunta me aflige: quem assassinou o astronauta?

prompts: angular, quem assassinou o astronaut?, uma coroa anciã/antiga, cartas

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

trapaça

Inktober é um desafio mundial criado em 2009 que acontece anualmente no mês de Outubro. É, essencialmente, um projeto para que artistas coloquem à prova sua criatividade, produzam regularmente e libertem-se da necessidade de perfeição que assombra a tantos. 
As regras são simples: baseado em uma lista de prompts (algo como propostas), o artista deve fazer um desenho a caneta em todos os dias de Outubro e postar o desenho finalizado com a hashtag inktober.



Em alguns aspectos, parece ok. E nos primeiros três dias, é bastante ok - especialmente porque a maior parte das pessoas faz a sua lista ou encontra listas para seguir antes do início do mês, então é comum que já tenham planejado com antecedência. As dificuldades crescem, porém: o tempo fica apertado, o cansaço aumenta, as ideias escasseiam, o resultado não sai como você esperava. Finalizar um desenho por dia torna-se um verdadeiro desafio. Muitas pessoas desistem.
Mas eu não sou uma artista que desenha.

O NaNoWriMo (National Novel Writing Month) é um desafio de escrita criado em São Francisco em 1999 que se espalhou por todo o mundo. De longe, é muito mais simples do que o Inktober - não propõe temas diários, mas sim estabelece um objetivo a ser completado até a meia noite do dia 30 de Novembro. Acontece que escrever 50,000 palavras, aproximadamente 175 páginas, em um único mês, não é nada ordinário. É uma verdadeira maratona, que promete um rascunho muito bruto de romance que mais tarde pode ser editado de modo a se tornar um verdadeiro livro. É enlouquecedor para muitos. E se você não acredita quão a sério isso é levado, recomendo ler esse artigo da Wikihow.

                                       
      


Um dia ainda vou participar e ser uma das vencedoras do NaNoWriMo. Mas eu sei que não vai ser esse ano, que estou sendo assombrada pelo bloqueio da escrita. O bloqueio é causado pelo sentimento de que nada do que você escrever vai ser bom. O NaNoWriMo, por trabalhar com quantidade em detrimento de qualidade, vai de encontro a isso.
Assim, eu decidi participar do Inktober, usando os prompts para fazer pequenos contos ao invés de desenhos. Como um exercício de escrita diário para me ensinar que não tem problema não saber direito o que estou fazendo e que nem toda ideia precisa ser boa.



Não consegui produzir tudo no dia exato - costumava acumular até cinco dias atrasados por vez - mas consegui finalizar em 31 de Outubro. Foi um ótimo sentimento. Nem todos os textos ficaram bons, mas muitos ficaram, e eu melhorei no quesito de “só ir” (com o qual tenho dificuldade em todos os aspectos da minha vida).
Só o que eu não fiz, que em teoria contraria o propósito, é postar diariamente. Ou em qualquer dia. Não que isso tenha me incomodado. Eu me apropriei das partes do Inktober que me interessavam, e não vejo nenhum problema nisso. E o criador também não:

No site oficial eles dizem que é para você fazer qualquer que seja a sua forma de criar arte e/ou o que deseje praticar mais. E inclusive citam a apropriação feita por escritores!

Mas também estou fazendo um movimento consciente para deixar esse blog caótico um pouco mais literário, e mostrar alguns resultados do meu Inktober parece apropriado.

Algumas informações sobre como vou fazer isso: primeira, não pretendo postar todos os dias, só aqueles dos quais eu gostei mais ou que penso que seriam legais de compartilhar. Mesmo porque me aproveitei para escrever trechos de vários dos meus projetos maiores, e eles não fazem sentido sem o contexto maior, que não pretendo postar.

 
 
Segunda, eu usei como base quatro diferentes tabelas de prompts. No começo, pretendia usar só as palavras que quisesse de cada uma, mas conforme os dias foram passando decidi usar sempre as quatro. Uma delas é… peculiar, e tornou cada dia uma aventura.







Terceira, os textos vão estar editados. Porque eu posso e quero e gosto (e porque não vou conseguir resistir enquanto estiver digitando cada um).
Eu continuo trapaceando.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

transporte público

Se é para ser técnica, eu cheguei primeiro. Mas os bancos do ponto encheram em questão de minutos, e quando ela chegou o único lugar vago era ao meu lado. Eu tinha esperança de que aquele lugar ficasse vazio, para poder continuar virada para ele (apoiar os pés, melhor visão do ônibus chegando, sol nas costas), mas quando ela sentou, só consegui me preocupar com estar tossindo. Ninguém quer sentar perto de alguém tossindo. E eu não quero passar minha gripe-sinusite-doença pra ninguém.
Pelo menos o ônibus chegou rápido. Foi ela que sinalizou para ele parar, então ela também foi uma das primeiras pessoas a entrar. Eu fui uma das últimas, porque tenho essa mania de deixar todo mundo passar na minha frente. Quando finalmente entrei, vi muito menos bancos vagos do que esperava. Dei um passo para frente, pensei em ser jogada de um lado para o outro enquanto fazia o longo trajeto até uma das portas, entrei em pânico e sentei na cadeira logo ao meu lado.
Talvez ela tenha pensado algo parecido. Porque ela estava no mesmo banco, na cadeira da janela. Deu vontade de levantar, mas achei que era melhor ficar lá e ser um pouco estranho do que parecer que tinha algum problema com ela.

Enquanto o ônibus estava cheio, ficou tudo bem. Tossi no meu braço, para o outro lado. Mas aí chegamos naquele ponto – aquele ponto – e, do nosso lugar beem no fundo, pudemos ver com clareza todos os outros bancos esvaziando até não sobrar ninguém. No ônibus inteiro.
Tá. E agora. O que fazer. Continuava sentada lá? Mudava para outro lugar? Não me faltavam opções, mas não ia ser feio? Assim, se eu tivesse trocado antes, podia ser porque tinha mudado de ideia, mas agora claramente seria para sair de perto dela. Isso ia ser grosseiro? Eu nem conhecia a menina. Será que não era mais educado ir tossir longe dela?
O dilema me deixou travada por pelo menos mais cinco pontos (cinco pontos nos quais ninguém se dignou a entrar para suavizar a minha agonia) até ela indicar que ia sair. Eu pulei para o banco do outro lado do corredor antes mesmo de ela vocalizar o licença e fiquei lá, aliviada.
Passei o resto da viagem inteira - mais um terço do trajeto completo - sozinha no ônibus com o motorista. Essa foi outra espécie de agonia.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

um sonho de semana passada

O café fica dentro de um bairro, o que não é funcional de maneira alguma. Se eu fosse fazer um café, tentaria conseguir uma localização no centro, mesmo que fosse em uma das ruas laterais em um canto menos frenético. Pelo menos ia ter movimento, ia ter gente pra tropeçar por lá e pensar, ei, bem que eu podia parar e tomar um cafezinho. É assim que comércio funciona, eu acho. Você se coloca na frente das pessoas e faz de tudo para que elas olhem para você.
Acho que a grande diferença desse lugar para os outros é exatamente essa. Ele não é para ser visto de forma leviana. Só quem sabe é o público especializado, quem já foi iniciado. Não é o tipo de lugar que se encontra por acaso, "descobri um restaurante ótimo outro dia". Tem que saber exatamente para onde está indo.
Se não fosse para ser assim, não teria um glamour escondendo. O que é mais uma coisa que não entendo direito. Do que adianta toda a estrutura e toda a comida, toda a produção frenética de doces, parece que elas não param um segundo e que precisam fazer dez variedades antes de se dar por concluídas, do que adianta tudo isso se o público é tão pequeno? Do que adianta se não podem ser vistas? Se não querem ser vistas?
Talvez porque a identidade de civil da dona seja dentista. Provavelmente não ia pegar bem com os pacientes encontrar sua dentista fazendo biscoitos e macarons e blocos sólidos de massa doce, com açúcar de confeiteiro na testa e salpicando farinhas coloridas e enfeitiçadas em todas as superfícies. Ela deve ser muito apaixonada por isso. Trabalha como dentista o dia todo, abre o café à noite e não para um segundo, coloca as entregas nas caixas das bicicletas e elas se desmaterializam e voltam cinco minutos depois, vazias, esperando por mais. Suas bochechas ficam vermelhas e parece que o rosto dela brilha, e isso não é nenhum glamour.
Elas trabalham em duas, a dona e a assistente. Não sei muito da outra moça. Talvez seja a aprendiz dela, ou alguma sobrinha. Ou uma sobrinha-aprendiz, que todo mundo sabe que é uma coisa comum. Acho que precisaria ser pelo menos uma das duas para estar disposta a fazer o que faz.
Eu chego no começo da noite, quando ainda estão começando, então elas nem olham pra mim direito. Gesticulam para a bancada e o que já está acumulado nela, que ainda não é muita coisa, duas partes completas e uma em processo. Os meus preferidos são os doces vermelhos com os pedaços de amêndoas e castanhas e pedras moídas na lua cheia, mas esses sempre demoram para sair. Precisam ficar mais tempo descansando, ou no forno, ou coisa assim.
Aí é que está: não é todo mundo que sabe fazer esse tipo de doce tradicional. Antes, era a única espécie de doce da comunidade toda, aquela única massa que se transformava no que você quisesse fazer. Mas acabamos nos adaptando aos tempos e ao industrial e ao açúcar. A versão delas não é exatamente a de 100 anos atrás, que nossas avós faziam, mas passa por todos os mesmos processos, mesmo que os ingredientes tenham sido modificados. Na verdade, os ingredientes são o de menos. O que importa mesmo é o que você faz com a massa, que feitiços embebe, quantas vezes dobra nas mãos, quantos minutos deixa sob a luz da lua. Não é todo mundo que consegue fazer isso. Elas fazem tão rápido que eu tento não olhar diretamente.
Não é meu lugar criticar o que elas decidem fazer com o que produzem. É sorte minha que eu saiba a cerimônia de admissão, que tenham decidido me trazer aqui no meu aniversário e que agora eu possa voltar quando quiser. Colocam a massa avermelhada na minha frente assim que terminam, e eu pego os primeiros macarons. Não tem nada no mundo com esse gosto. Nenhum lugar parecido com esse, com sua luz amarelada e as flores que crescem em volta do esqueleto de madeira, atraídas pelo cheiro de magia antiga.

hoje sofri uma decepção

Uma ideia é muito mais apaixonante do que uma pessoa. Tanto que é comum nos apaixonarmos antes pela ideia de uma pessoa do que pela pessoa em si.
 
Em Memórias póstumas de Brás Cubas, Brás diz logo no primeiro capítulo que não morreu de pneumonia, mas sim de uma ideia. Eu li esse livro pela primeira vez no ensino médio. Não consegui estabelecer identificação.
Agora sei como uma ideia pode te absorver. Mas sabe, não tenho certeza de que é a ideia que te mata nem de que é a ideia que faz com que você se apaixone. Eu acho que o que faz você se apaixonar é a esperança, e o que te mata é a expectativa (e isso não funciona apenas para as ideias).
Uma ideia é pior do que uma pessoa. A ideia quebra seu coração de forma desinteressada, seja de uma vez só ou aos poucos, enquanto você tenta se convencer de que consegue colar os pedaços necessários para aquilo funcionar. A ideia mal estruturada vai se despedaçando entre os seus dedos como um bolinho de areia - escorrendo para o chão, impossível de segurar.
Ela não cria laço de permanência. A sua ideia pode aparecer na cabeça de outra pessoa e nunca mais se associar a você de novo. Ganha quem chegar lá primeiro. Ou quem chegar lá.

Ideias são malignas e perigosas porque não entendem o conceito de moralidade humano. Uma ideia pode te puxar para qualquer lado e ficar sussurrando no seu ouvido coisas que você sabe que não deve fazer, mas que gostaria. E o sussurro nunca se interrompe.

Quando elas falham, fica um buraco onde estavam antes. Seu cérebro, tão acostumado a investir pensamentos naquela mesma ação, de repente desnorteado e apático. É quase como solidão.
Ao mesmo tempo, algumas ideias só valem a pena enquanto ainda não foram colocadas em prática. São uma ótima atividade mental, mas perdem o apelo no momento em que saem para o mundo concreto. Essa é a parte mais engraçada. Já não escrevi muitos posts assim.

Essa reflexão não tem um propósito. Só não queria desperdiçar mais uma ideia.

domingo, 26 de agosto de 2018

Semana porco-espinho

Disclaimer: porcos-espinhos são bonitinhos e herbívoros e quietos e não fazem mal a ninguém a não ser que sejam atacados. Esse post não pretende criticar ou fazer um discurso de ódio ou incentivar violência contra esses pequenos animais.


Uma semana porco-espinho é afiada e difícil de manusear. Você entra nela esperando que fique tudo bem, pensando que ela é inofensiva, mas ela explode as suas expectativas no momento em que a coloca nas mãos. É como a lógica do cachorro ao ver um porco-espinho: é pequeno, é rápido, é interessante, tem um cheiro legal. A reação é querer pegar. As consequências são dolorosas.

Na semana porco-espinho, nada acontece como o esperado. Você tinha planos e intenções e propósitos, todos jogados pelos ares no momento em que a semana desponta. Tudo precisa ser redesenhado, os compromissos perdidos e remarcados ou compensados na semana seguinte — uma semana que, espera-se, seja diferente dessa. Uma semana que não pareça tão determinada a te contrariar.

A semana porco-espinho é uma semana de exaustão. Uma semana de sono independente de quanto você durma (sempre menos do que gostaria) e de cansaço independente de quanto tempo você seja obrigada a ficar apenas esperando as coisas voltarem para o lugar. É a semana feita de dias eternos que você não percebe que estão passando, porque está tão fora de si mesma e da realidade que parece que o tempo funciona de um jeito diferente, concomitantemente distendido e acelerado.

Mesmo quando você tira os espinhos (os grandes com os dedos, os pequenos com o auxílio exato de uma pinça), as coisas não voltam ao normal. As feridas tornam tudo o que você tenta segurar áspero demais, abrasivo demais, um peso maior do que deveria. Não dá para pegar coisas que você costuma mover sem perceber. Nem enchendo de bandaid e bandagem e pomada as suas mãos voltam a ser o que eram antes do começo da semana.

Felizmente, semanas porco-espinho não aparecem sempre. Na maior parte do tempo, as semanas jogadas na gente são bolas de verdade, sejam de bexiga ou de boliche.
É sempre uma questão de reflexo.

乁( ˙ ω˙乁)

segunda-feira, 4 de junho de 2018

20 (vinte) anos

Não sei, acho que precisa de muito esforço — ou de esforço nenhum — para criar uma criança que não fica animada com o próprio aniversário. Mesmo porque, lá pelos primeiros cinco anos, a data é mais significativa para os pais do que para os aniversariantes. A partir do momento em que a criança começa a compreender o conceito e que tudo aquilo é por ela e para ela, é preciso uma personalidade bem forte para não querer nada daquilo. Crianças costumam gostar de estar no foco de tudo, então automaticamente o dia do aniversário é o melhor dia do mundo.

Esse é mais ou menos o padrão para crianças. Quando as crianças crescem, as coisas ficam um pouco diferentes. Dá para separar os adultos em mais ou menos quatro categorias:

Tem gente que é a eterna criança, para quem aquela realmente é a data mais importante do ano. Conheço pessoas que anunciam a proximidade do aniversário com meses de antecedência, que montam comemorações fragmentadas em diversos eventos e que chegam a durar dias. 

Tem gente que fica em uma situação de equilíbrio. Gosta de fazer aniversário e gosta de comemorar, mas não precisa ser em larga escala. O mundo inteiro não precisa saber nem lembrar nem dar presente, o que importa é que aquele dia importante seja marcado de forma que a deixe feliz.

Tem gente que deixa de se importar. É o dia em que nasceu, mas também é um dia qualquer. Não precisa acontecer nada, porque aquilo não altera a sua vida de forma concreta. Dá pra fazer alguma coisa e ser legal, mas não precisa.

Tem gente que odeia, mas que odeia mesmo. Que nem fala quando é. Que preferiria que todo mundo esquecesse. Que some no dia pra não ter que falar com ninguém.

Tem menos de uma semana pra meu aniversário. Ainda não sei que tipo de adulta sou.

乁( ˙ ω˙乁)