segunda-feira, 28 de novembro de 2016

as pessoas falam "morte", quando o correto é "reinvenção"

Cartas.
Quem diz que as cartas morreram?
De fato, o ato de escrever no papel com a data e o local no topo, colocar em um envelope e mandar pelo correio tornou-se raro. O correio é mais para encomendas e entregas de presentes e produtos comprados na internet.

Então, sim; se você considera carta como exclusivamente o papel a caneta e o envelope, é preciso admitir que elas foram enterradas há alguns anos.
Eu não acho que cartas sejas apenas isso.

Eu fiz uma amiga pela internet através de um site de fanfic (porque claro). Faz tempo que tenho uma conta e faz um tempo desde que postei uma fanfic pela primeira vez. Faz mais tempo ainda que leio fanfics. Assim, estava consciente de que pessoas criam amizades através dessa plataforma. Dedicatórias, colaborações, comentários frequentes - eu era testemunha de tudo isso. Nunca fizera parte de algo parecido, só estabelecia contato para elogiar coisas ou para agradecer elogios às minhas coisas.

Em fevereiro, eu publiquei uma fanfic. Uma fanfic triste. E, em março, comentaram na fanfic.
"Você tem talento para magoar pessoas," ela disse. "Eu admiro isso."
Não sei se consigo colocar em palavras quão profundamente elogiada eu me senti. Não há satisfação maior do que um texto que atinge seu objetivo, e o objetivo daquele texto era magoar pessoas.
Antes de responder entrei no perfil da menina, o leve stalkismo que sempre faço quando alguém comenta. Eu já estava meio tonta de alegria. Aí saí do perfil querendo ser amiga dela.

Respondi ao comentário falando que se ela tivesse indicações de fanfics do mesmo fandom que fossem devastadoras de um jeito bom, eu apreciaria muito.
Agora, atenção para o pulo - não tem como responder uma resposta à resposta naquele site. Ou seja, se a menina fosse mesmo me indicar alguma coisa, ela teria que me mandar uma mensagem privada.
Eu pensei nisso quando respondi? Talvez. Era um convite sério e não era. Era aquele tipo de convite que você quer que a pessoa aceite, mas ao mesmo tempo sabe que é mais provável que não dê em nada.

Ela me mandou uma mensagem privada. Muito educadinha, perguntando se eu lembrava dela, e dizendo que se eu estava falando sério a respeito das indicações ela podia ir procurar.
é claro que eu lembrava.

Respondi. E ela me respondeu. E eu respondi de volta. Os tópicos iam se acumulando e as mensagens ficando mais longas. Atualmente eu entro no site para responder uma vez por mês, quando sei que tenho tempo livre, porque as mensagens evoluíram para verdadeiras cartas, cujas respostas demoram uma hora para elaborar e ocupam três páginas no word.

Sobre o que falamos? Mal sei. Sobre o fandom que nos uniu em primeiro lugar, sobre o brexit, sobre nossas experiências com Harry Potter, sobre como não sabemos fazer coisas, sobre tpm. As cartas são extensas e muitas vezes sem nexo. Talvez pudessem ser estruturadas em tópicos. O que não as torna menos cartas, para mim.
Eu gosto de cartas. Acho que sempre gostei de cartas.
Eu já troquei cartas "de verdade". Escritas em papel, com uma cor de caneta diferente a cada parágrafo. Uma professora que dava aula em duas escolas era a coruja encarregada. Era um projeto - as salas inteiras trocaram cartas antes de se conhecer pessoalmente. Fomos a única dupla que continuou trocando cartas depois que o projeto terminou. Fomos amigas, com certeza por meses, talvez por anos. Não me lembro bem.
Até que os assuntos terminaram. Apenas fechamentos nas cartas, nenhum tema novo.
Ei, também não é assim com as amizades cara-a-cara?


Talvez a carta seja um sentimento. Uma linha em um papel mandado pelo correio é uma carta? Folhas e folhas enfiadas embaixo de portas são cartas? O contexto e as etapas fazem a definição? Essa discussão pode se aplicar a tantas coisas.

Eu troco cartas pela internet. Eu tenho uma amiga em um estado bem, bem longe, e provavelmente nunca vou vê-la, e essa perspectiva não me preocupa ou chateia.
Eu troco cartas. Eu tenho uma amiga. E talvez um dia os assuntos com ela terminem também.
Ei, a vida não é feita de apostas?
Eu aposto nas cartas. (há!) (consegui estragar o post todo)

(ノ◕ヮ◕)ノ*:・゚✧

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