quinta-feira, 15 de novembro de 2018

dia 16


Um pescoço não deveria dobrar desse jeito. É angular por natureza, noventa graus com os ombros, mas não noventa graus consigo mesmo. Isso é angular demais. Mesmo o apreço do universo por padrões e simetrias tem um limite.
Aos seus pés estão papéis pequenos, retangulares, com imagens em preto e vermelho. É um jogo de cartas, amassadas e velhas, e é assim que sei que ele é humano. Humanos são os únicos que usam papel para coisas tão fúteis desse lado da galáxia. Da forma como estão espalhadas, parecem ter sido jogadas de propósito, com descaso.
Nenhum desses detalhes é a parte mais estranha. O que chama a minha atenção de cara, que faz meus olhos saltarem, é o que está no colo dele. Deve ter sido depositado lá, porque não é uma relíquia humana, mas na verdade não me remete a nenhuma cultura que eu já tenha estudado.
Consigo identificar que é uma coroa, mas é como nenhuma que eu vi em minha carreira de arqueóloga e em meus anos frequentando museus. Não tem joias ou adornos de qualquer tipo, não sei dizer se as reentrâncias que vejo são entalhes ou o resultado dos anos. É de metal sólido e tem as bordas rústicas e de aparência afiada, como se tivessem sido lapidadas como pedra. É como se engolisse a luz. Ao olhá-la, sou invadida por um sentimento misto de reverência e medo, como tenho sempre que escavo algo ancião, e sei que aquela coroa é mais antiga do que consigo começar a imaginar.
Encostada contra ela, de forma muito proposital, está uma das cartas: o rei de espadas.
E por mais que tudo isso me fascine, quando vejo a cena completa e olho para a desolação desse planeta alienígena, no qual não registramos vida inteligente há pelo menos três mil anos, uma única e aterrorizante pergunta me aflige: quem assassinou o astronauta?

prompts: angular, quem assassinou o astronaut?, uma coroa anciã/antiga, cartas

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