terça-feira, 22 de agosto de 2017

Rainbow Rowell sabe muitas coisas

Rainbow Rowell escreve de forma muito especial. Quando eu termino um livro dela, minha vontade não é de fechar as páginas, mas sim de voltar para a primeira e começar tudo de novo.
Para mim, a palavra que melhor descreve a literatura de Rainbow Rowell é deleite. Honestamente, é a primeira palavra que vem na minha cabeça.

Ela tem 5 livros publicados no Brasil - Fangirl, Eleanor e Park, Ligações, Anexos e Carry On - dos quais só não li Ligações. Terminei Carry On recentemente, depois de quase um ano de construção de expectativa. Li no inglês original, que é ainda mais deleitoso que a tradução (que já é esplêndida) (dá para perceber meu contentamento com os livros pelos adjetivos que estou usando).

A escrita dela é leve. Parágrafos curtos, frequentemente de uma linha. Imagens poéticas. A construção imagética dela é incrível. Ela não descreve diretamente, mas fornece os elementos-chave de cada ambiente e personagem de forma tão precisa que, a partir daquele detalhe, dá pra delinear a cena inteira.

Algumas interações e cenas parecem absolutamente descartáveis para o enredo e provocam aquele sentimento de coisa inventada, até que você percebe que a vida real está cheia de momentos surreais e desnecessários. E os livros dela estão cheios de vida real. O diálogo é impressionante por sua naturalidade, por como ela consegue fazer personagens soarem como pessoas de verdade. Linguagem casual, temática esparsa. É como a transcrição de uma conversa entreouvida na rua, como se Rainbow Rowell passeasse por aí anotando situações enquanto elas se desenrolam.
Nem tudo na vida real é enredo. Nem toda conversa faz sentido. Ela sabe disso. É um segredo precioso.

Rainbow Rowell escreve histórias de amor, mas poderia escrever qualquer coisa. Ela desenvolveu toda uma técnica para chegar no coração de quem lê, e a técnica é boa. Alguns de seus livros funcionam muito bem como wish-fullfilment - ela faz com que eu me sinta lendo fanfic, no significado mais refinado e positivo que pode ser atribuído ao gênero, a fanfic que completa todos os buracos que a história original deixou em você- , mas outros te transformam em uma massa de carne e soluços. Ela chega no seu coração, mas nem sempre para apaziguá-lo, porque escreve sobre a vida e sabe que nem tudo é um grande final feliz. Mesmo em Carry On, onde brinca com um mundo mágico e com o modelo padrão de histórias sobre o Escolhido, as relações humanas são dolorosamente reais. O que significa que nem todo mundo sai feliz, e que tudo bem.
Ela escreve sobre amor, mas nem todo amor é bom e nem todo amor funciona e perdura, e ela não mente para poupar o leitor.

A escrita dela é como comer algodão doce. Tem tons pastéis e derrete na boca e gruda no nariz e isso faz você dar risadinhas ao invés de te irritar.
A escrita dela também é como uma faca bem entre as costelas. Sem piedade.
É uma mistura fascinante.

Não vou me exaltar e dizer que Rainbow Rowell sabe escrever, porque escrever é uma coisa tempestuosa e instável e não funciona todos os dias e eu não faria uma declaração tão ousada. Mas Rainbow Rowell sabe muitas coisas.

(ノ◕ヮ◕)ノ*:・゚✧ 

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