terça-feira, 11 de setembro de 2018

transporte público

Se é para ser técnica, eu cheguei primeiro. Mas os bancos do ponto encheram em questão de minutos, e quando ela chegou o único lugar vago era ao meu lado. Eu tinha esperança de que aquele lugar ficasse vazio, para poder continuar virada para ele (apoiar os pés, melhor visão do ônibus chegando, sol nas costas), mas quando ela sentou, só consegui me preocupar com estar tossindo. Ninguém quer sentar perto de alguém tossindo. E eu não quero passar minha gripe-sinusite-doença pra ninguém.
Pelo menos o ônibus chegou rápido. Foi ela que sinalizou para ele parar, então ela também foi uma das primeiras pessoas a entrar. Eu fui uma das últimas, porque tenho essa mania de deixar todo mundo passar na minha frente. Quando finalmente entrei, vi muito menos bancos vagos do que esperava. Dei um passo para frente, pensei em ser jogada de um lado para o outro enquanto fazia o longo trajeto até uma das portas, entrei em pânico e sentei na cadeira logo ao meu lado.
Talvez ela tenha pensado algo parecido. Porque ela estava no mesmo banco, na cadeira da janela. Deu vontade de levantar, mas achei que era melhor ficar lá e ser um pouco estranho do que parecer que tinha algum problema com ela.

Enquanto o ônibus estava cheio, ficou tudo bem. Tossi no meu braço, para o outro lado. Mas aí chegamos naquele ponto – aquele ponto – e, do nosso lugar beem no fundo, pudemos ver com clareza todos os outros bancos esvaziando até não sobrar ninguém. No ônibus inteiro.
Tá. E agora. O que fazer. Continuava sentada lá? Mudava para outro lugar? Não me faltavam opções, mas não ia ser feio? Assim, se eu tivesse trocado antes, podia ser porque tinha mudado de ideia, mas agora claramente seria para sair de perto dela. Isso ia ser grosseiro? Eu nem conhecia a menina. Será que não era mais educado ir tossir longe dela?
O dilema me deixou travada por pelo menos mais cinco pontos (cinco pontos nos quais ninguém se dignou a entrar para suavizar a minha agonia) até ela indicar que ia sair. Eu pulei para o banco do outro lado do corredor antes mesmo de ela vocalizar o licença e fiquei lá, aliviada.
Passei o resto da viagem inteira - mais um terço do trajeto completo - sozinha no ônibus com o motorista. Essa foi outra espécie de agonia.

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